O que mudou (ou não) nas queimadas do Cerrado desde 2014?
Análise por Marina Monteiro e Thais Filipi
Dados do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima apontam para uma redução de 65,8% das áreas queimadas e de 46,4% nos focos de queimadas no país. Um dos biomas que mais beneficiou desta queda foi o Cerrado, que no ano anterior apresentou os maiores números de focos de calor da série histórica, desde 1998. Dentre as explicações para a queda, destacam-se a diminuição da vegetação disponível para queimar, dada a intensidade das queimadas em 2024, a diminuição da seca em comparação com o ano anterior e maior intervenção pública quanto ao uso de fogo no bioma (Nexo).
Mas como está sendo a distribuição temporal dos focos de calor até o momento? Aqui apresentamos uma série histórica dos focos de calor na região com dados do INPE, de 2014 até 2025.
O INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) é o principal órgão dedicado à pesquisa e desenvolvimento no setor espacial. Ele faz o trabalho de detecção de queimadas desde 1985 – e a partir de 1987 de forma rotineira, por meio de sensoriamento remoto. O sistema foi aperfeiçoado em 1998, com o estabelecimento de um satélite de referência.
Os satélites são super importantes nesta discussão. Eles são utilizados para detectar a radiação térmica emitida pelo fogo, que são os focos de calor. Cada foco detectado corresponde a um pixel da imagem gerada pelo satélite, que pode ter entre 375 metros e até 5 quilômetros de lado, dependendo do satélite. Dentro desse pixel pode haver uma ou várias frentes de fogo, mas o sensor vai registrar tudo como um único ponto de calor.
Além dos focos em si, os satélites também capturam a Potência Radiativa do Fogo, ou FRP (que vem do inglês Fire Radiative Power). Ela é uma medida instantânea da energia emitida por um incêndio, e é capaz de indicar o quão energeticamente intenso é o fogo. Incêndios de desmatamento tendem a ter FRP mais alto, pois queimam grandes quantidades de madeira com alta concentração de biomassa. Já o fogo em vegetação como capim tem FRP mais baixo, por queima de material menos denso (Letras Ambientais).
O INPE realiza o processamento automático de mais de 200 imagens diárias com o objetivo de identificar focos de queima da vegetação. Essas imagens vêm de satélites de órbita polar — que passam pelo menos duas vezes ao dia — e de satélites geoestacionários, que fornecem atualizações a cada dez minutos. As recepções ocorrem em duas bases: uma em Cachoeira Paulista (SP), próxima à divisa com o Rio de Janeiro, e outra em Cuiabá (MT) (Terra Brasilis).
Pela forma como os dados são coletados não é possível estabelecer uma relação direta entre focos detectados e áreas queimadas. Um mesmo incêndio de grandes proporções pode aparecer como vários focos agrupados (se ocupar diversos pixels), ou ainda ser detectado por diferentes satélites ao longo do dia — o que pode gerar múltiplos registros do mesmo evento, embora o INPE trate esses dados para evitar repetições. E por isso é importante saber um pouquinho mais sobre cada satélite!
O sistema do INPE fornece dados valiosos sobre a ocorrência do fogo, mas não é possível, com os sensores atuais, determinar com precisão o que exatamente está queimando ou quantos hectares foram queimados em cada foco. Mesmo assim, a contagem de focos de calor funciona como um bom indicador da atividade de fogo, especialmente para identificar tendências ao longo do tempo e do território.
Por fim, definir o que é uma queimada ou um incêndio também não é simples: pode ir de um pequeno foco isolado até eventos que duram semanas e atingem milhares de quilômetros quadrados. Por isso, os focos de calor servem como uma métrica útil – ainda que parcial, para entender a extensão do fogo no bioma.
Quando observamos a distribuição semanal dos focos de calor no Cerrado entre 2014 e 2024, a sazonalidade salta aos olhos: a maior parte das queimadas se concentra entre as semanas 30 e 45 do ano, período que corresponde à estação seca no bioma (mais ou menos entre julho, agosto e setembro). No entanto, a intensidade dessa temporada varia. Em 2024, por exemplo, o Cerrado teve concentração temporal das queimadas bastante acentuada – padrão similar a 2019 e 2017 (Veja no gráfico abaixo).

Outra forma de visualizar as queimadas no bioma é por meio de uma série histórica de mapas de calor. Esses mapas utilizam um método chamado Kernel Density, que calcula a densidade de eventos – como os focos de queimada – em uma determinada área. Em vez de mostrar apenas os pontos onde houve fogo, o mapa estima a concentração dessas ocorrências no território, criando manchas que indicam as áreas com maior ou menor intensidade ao longo do tempo.
Funciona assim: cada foco de calor detectado por satélite irradia uma influência ao seu redor, como uma onda suave que vai perdendo força com a distância. Quando essas influências se sobrepõem, formam as regiões de maior densidade visíveis no mapa. A resolução espacial do satélite e a intensidade de cada foco (medida pela Potência Radiativa do Fogo) influenciam diretamente o resultado, permitindo distinguir queimadas mais intensas das mais brandas. Essa abordagem ajuda a revelar padrões espaciais de fogo que não seriam evidentes olhando apenas os dados brutos. Para mais detalhes técnicos, veja a Explicação da Esri sobre como funciona a densidade por kernel. O gráfico abaixo apresenta a distribuição.

A região que corresponde ao norte do Cerrado, especialmente nos estados do Maranhão e Tocantins, apresenta queimadas de forma quase contínua desde 2004. Já os focos de calor nas regiões de Mato Grosso e Goiás (porção oeste do bioma) ganham destaque principalmente nos anos de 2003, 2004, 2009, 2010, 2020, 2021 e 2024 – também configurando uma área crítica de recorrência. Por outro lado, a parte sul do Cerrado – que abrange partes de Mato Grosso do Sul, São Paulo e Minas Gerais, acumulou, em geral, menos focos no período analisado, com aumento mais expressivo da incidência a partir de 2019.
A expansão da fronteira agrícola no MATOPIBA pode ajudar a explicar a frequência elevada de focos no norte do bioma ao longo dos anos (fronteira agrícola composta pelo Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia). A região concentrou 82% do desmatamento do Cerrado em 2024, por exemplo (Brasil de Fato, 2024), sendo que 78% do desmatamento ocorreu dentro de propriedades particulares.
O que a série histórica aponta, além das variações anuais, é que o combate às queimadas exige vigilância constante, especialmente no pico da estação seca.
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