Análise e entrevista publicadas na BDletter em Novembro de 2023. Assine gratuitamente para receber mensalmente em seu email
No cenário educacional brasileiro, uma importante tendência tem se desenrolado e redefinindo completamente onde e como aprendemos. Seja pela praticidade no acesso, flexibilidade de horários ou até por conta da possibilidade de estudar em instituições internacionais sem sair de casa, a modalidade de ensino a distância (EAD) dominou o Ensino Superior no Brasil, conquistando cada vez mais jovens e adultos em busca de uma formação para se colocar no mercado de trabalho. Em apenas 12 anos, o número de ingressantes em cursos do Ensino Superior à distância cresceu 657% e, em 2021, chegou a representar 62,8% do número total de ingressantes no Ensino Superior.
Para entender melhor este contexto, exploramos os dados do Censo do Ensino Superior, pesquisa realizada anualmente pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). O objetivo da pesquisa é coletar dados sobre as Instituições de Ensino Superior (IES), seus cursos oferecidos, matrículas, ingressos, concluintes, docentes e infraestrutura, fornecendo um panorama do sistema de ensino superior no país.São informações abrangentes que vão desde os detalhes de cada instituição, até o perfil de alunos(as) matriculados(as), como idade, gênero e mais. Vamos para a análise?
A ascensão no número de participantes no ensino a distância nos últimos dez anos é impressionante. Em 2009, cerca de 331 mil indivíduos escolheram essa modalidade. Já em 2021, a modalidade chegou a atrair mais de 2,47 milhões de pessoas. Alguns dos fatores que podem ter contribuído para esse crescimento são o avanço tecnológico na conectividade e acesso à internet no Brasil, a redução de custo para estudantes e instituições, que podem economizar com gastos relacionados à infraestrutura, a grande variedade de cursos oferecidos, dentre outros.
Outro importante fator para o crescimento da modalidade é a grande oferta de formações à distância pela rede privada. Em 2021, 559 instituições de ensino superior ofereciam cursos EAD, sendo 450 da rede particular, aproximadamente 80,57%. Veja no gráfico abaixo como foi esse crescimento ao longo do tempo.
A idade dos(as) alunos(as) não é muito diferente entre as modalidades à distância e presencial — 30% na faixa etária dos 18 aos 24 anos, seguido de 25 a 29 (19%) e 30 a 34 anos (16%). Porém, as áreas de preferência dos estudantes diferem bastante. Em 2021, 46% de todos os ingressantes na modalidade EAD se concentram nas áreas de Administração, Negócios, Direito, Educação e Saúde e Bem-Estar. Foram aproximadamente 1,8 milhões de pessoas ingressando nessas áreas, enquanto no presencial foram pouco mais de 883 mil pessoas. A grande tendência nos cursos presenciais é a área de Engenharia, Produção e Construção, que contou com mais de 1,7 milhões de ingressantes no mesmo ano.
Fica a dica: Você pode aproveitar o código utilizado no gráfico da análise dessa edição. Veja o código por aqui.
Crie suas próprias análises, compare o desempenho das equipes participantes e ajude a incentivar e apoiar esse importante evento para promover a igualdade de gênero no esporte.
Entrevista com Hugo Medeiros, Gestor de Projetos Especiais na Secretaria de Planejamento, Gestão e Desenvolvimento Regional de Pernambuco (SEPLAG — PE)
Já vimos como os dados do Censo da Educação Superior são importantes para entender as tendências do cenário educacional no Brasil. Para aprofundar essa conversa, falamos com Hugo Medeiros sobre um caso muito interessante do uso de dados para elaboração e avaliação de políticas públicas. Falamos também sobre oportunidades e desafios da digitalização na educação.
Hugo Medeiros, servidor de carreira da Secretaria de Planejamento, Gestão e Desenvolvimento Regional de Pernambuco (SEPLAG-PE), onde ocupa o cargo de Gestor de Projetos Especiais. No Governo de Pernambuco, Hugo atuou como Diretor do Instituto de Gestão Pública (IGPE) e como Diretor de Inovação, na Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTI-PE), sendo cofundador do Núcleo de Ciência de Dados (NCD) e da Usina Pernambucana de Inovação (USINA). Além disso, Hugo é doutor em Educação (UFPE), com pós-doutorado em Ciência Política (UFPE) e também atua como professor colaborador nos Programas de Pós-graduação em Ciência Política (ME/DO) e em Políticas Públicas (ME), ambos da UFPE.
O acesso a dados educacionais é fundamental para a elaboração de políticas públicas mais eficientes e baseadas em evidências. Como Gestor Governamental, você poderia nos contar sobre um bom exemplo de implementação de política pública de educação com impacto positivo para a sociedade? Tem conhecimento de quais dados foram utilizados no desenvolvimento dessa política pública?
Os Espaços 4.0 de Pernambuco foram criados com base na análise de diferentes dados e possuem um modelo lógico de funcionamento que guia sua formulação, monitoramento e avaliação. Especificamente sobre a formulação, foram usados microdados de diferentes bases, como ENEM, Censo da Educação Básica e Sistema Estadual de Avaliação, para entender o perfil dos estudantes e o que precisava ser feito para melhorar o contato e a aprendizagem em matemática, que é a base da educação STEM.
Identificamos que, para esse componente curricular, duas variáveis importavam muito: gosto por matemática e sexo do estudante. Assim, a formulação dos Espaços 4.0 de Pernambuco levou em consideração a criação de uma política pública que despertasse o gosto pela matemática através de ações práticas e que fosse mais permeável a questões de gênero. O resultado foi muito bom, uma vez que conseguimos chegar perto da paridade de gênero na alocação das bolsas, com 42% das bolsas alocadas para meninas. O estudo originário que deu base à formulação pode ser encontrado aqui.
Um último elemento importante na formulação, que fez com que direcionássamos as primeiras 20 unidades para o interior do Estado, foi uma pesquisa da UNICEF, que apontou que os jovens acreditam que a escola não os prepara para o mercado de trabalho. Olhando nossos dados, vimos que vários estudantes de bom desempenho migravam para estudar na capital, reforçando os resultados da pesquisa. Por isso, enviamos as primeiras 20 unidades para polos regionais do interior, e acrescentamos ao desenho bolsas de R$ 500,00, para que os jovens tivessem incentivo para permanecer na sua região, usando os Espaços 4.0 de Pernambuco como base para empreender.
Finalmente, com 1 ano de programa, fizemos uma avaliação usando diferença em diferença para entender se um programa assim tão direcionado teria efeitos negativos sobre a aprendizagem de outras disciplinas e componentes. Foi interessante notar que, enquanto os Espaços 4.0 de Pernambuco geravam resultados importantes como Startups educacionais — uma delas com faturamento na ordem de centenas de milhares de reais, isso estava sendo feito sem impacto negativo sobre a aprendizagem de outros componentes, uma vez que as notas das escolas com Espaços 4.0 tinham média semelhante à outras escolas de mesmo perfil. Todas essas ações de formulação, monitoramento e avaliação só são possíveis porque há dados disponíveis, a grao do estudante. Isso, se bem usado, traz riqueza à política pública, que ganha muito mais chance de acertar.
Analisando os dados do Censo da Educação Superior, identificamos uma porcentagem cada vez maior de ingressantes em modalidades de Ensino à Distância. Em sua avaliação, quais desafios e oportunidades você acredita que essa mudança representa para a promoção da excelência na educação e na preparação de professores?
A digitalização da educação é importante para garantir acesso a pessoas em situações nas quais a educação presencial é muito difícil de chegar. Isso envolve sobretudo dificuldades com deslocamentos e afins. No mestrado e doutorado em Ciência Política na Universidade Federal de Pernambuco, é comum termos estudantes do interior ou de outros Estados do Nordeste. Não faz muito sentido que eles tenham de se deslocar por horas para assistir a uma aula presencial, e depois fazer o mesmo caminho de volta. Idem para outros contextos, especialmente na graduação, quando o deslocamento traz consigo diversos gastos com transporte, alimentação, etc., muitas vezes para campi universitários que apresentam dificuldades com segurança e por aí vai.
Agora, sempre que falamos em digitalização, temos de lembrar do risco de isso afastar ainda mais as pessoas, uma vez que acesso, conectividade e letramento não são tão difundidos quanto as tecnologias em si. A literatura chama isso de “fosso digital”, e está ligado a coisas como dificuldade para entender instruções em tela, acesso exclusivo por algum tipo de dispositivo e dificuldade em acessar uma conexão estável. Então, acho que os movimentos de digitalização da educação têm de vir de forma conjunta com ações de mitigação desses efeitos, garantindo melhores condições para se estudar e aprender.
Acesse os dados do Censo de Ensino Superior
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